californication

18/06/2010

Adalberto de repente, para não infelizmente entrar na rotina dessa vez entra com o pé esquerdo, chega em casa, pega uma caneta e um papel e quer escrever coisas incríveis. Quer colocar tudo à tinta. Começa a tocar no vizinho ao lado uma música um tanto e alta e antes que pudesse se indignar resolve entender qual seria aquele som que de alguma forma se conectava com sua memória. Percebe ser “Scar Tissue” de uma banda, Red Hot Chilli Peppers, que nunca mais escutou desde os 14 anos de idade, tempo em que respirava outro ar, tempo que o tempo nunca tinha sido uma questão, tempo em que ele tinha menos noção do que seria do que naquele momento ali ouvindo “With the birds I’ll share. This lonely view”. Lembrou de quando tomou o primeiro porre, o primeiro cigarro de maconha em que dançou como se nunca aquele momento pudesse vir a ser lembrado depois. Foi. Está sendo, aquele momento está sendo homenagiado neste momento, por que não? Porque não homenagiar momentos marcantes como se fossem eles que tivessem decidido tudo, nem que fosse tudo que acontece agora. Lembra de quando não chorava por amor ainda, lembra que não via no sexo o direcionador sentimental que o impede de procurar outra coisa. Via que tinha chance, via que tinha oportunidade.

Acabou a música e as lembranças ficaram pela metade. Já não sabe mais qual momento foi homenageado, aquele do ao vivo, da vivência ou este em que sabe que aquilo tomou forma, em que realmente virou alguma coisa.

Na dúvida olha para os lados e não tem ninguém. Até tenta, memso sabendo da frustração certa posterior, mas se depara com o cd da Adriana Calcanhoto em que ela diz que tudo derrete num calor que oprime. Está frio, Adriana, tudo congela! O seu derreter acaba com a forma das coisas, dá sentido, o frio faz com que tudo endureça e  deixe tudo no mesmo lugar, mas sempre ali mesmo que petrificadas. Pensa isso enquanto olha aquele cd que deixou no dia quinze de março encima da segunda prateleira de cima para baixo. Percebeu que desde então aquele cd se encontra ali sem nunca ter saído e estado em outros lugares, outras mãos. Percebe que se não mudá-lo de lugar ele permanecerá ali. Percebe o quanto sua vida pode mudar a circulação daquele objeto que pode nunca vir a existir de verdade. Corre, coloca na terceira prateleira e decide que em todos os dias Adriana Calcanhoto estaria em algum lugar diferente em sua casa.

Acorda, escova os dentes, se arruma e escolhe o lugar para colcoar Calcanhoto.

É, hoje fez um calor insuportável, lembra que deixou o cd perto da janela exposto ao sol. Quando se lembra decide deixá-lo lá pra sempre. Dá risada ao lembrar de suas tentativas.

Adalberto esquece todas suas coisas que permanecem no mesmo lugar até desconhecidos colcorem tudo numa caixa velha que já contêm panos de pratos bordados à mão neste momento.

Adriana Calcanhoto como que por um sinal divino foi a última a mudar de lugar, mas quando aconteceu deixou marcado na madeira sua forma quadrada que deixou como uma tatuagem a cadeira que Adalberto senta agora.

risada

18/06/2010

5 vezes!

4 vezes!

1 nem teve nome! 1 não deu tempo pra ter nome! 1 foi a que não permitiu um nome!

pular! cair quase de pé!

pular! tudo em volta pára e te deixa deitado esperando! constrangido!

pular! pra dentro e querer sair e te deixar como antes! formigando!

pular! é macio!!! macio!

suavidade existe quando não é possível conceber o áspero, ou quando se está tão acostumado a ele que qualquer coisa se torna suave!

fim do aveludado é a decisão de de de carpir os rodeios. de de de carpir as curvas e transformar tudo numa linha reta. linha reta pra baixo, pra gravidade, pro centro, pro início!

ingere pra virar ingerível.

arranha

queima

rasga

arranhaqueimarasga

arranhaqueimarasgaarranhaqueimarasga

arranhaqueimarasgaarranhaqueimarasgaarranhaqueimarasga

arranhaqueimarasgaarranhaqueimarasgaarranhaqueimarasgaarranhaqueimarasga

arranhaqueimarasgaarranhaqueimarasgaarranhaqueimarasgaarranhaqueimarasga

arranhaqueimarasgaarranhaqueimarasgaarranhaqueimarasgaarranhaqueimarasga

arranharasgaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimarasgaqueimaarranha

queimarasgaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimarasgaqueimaarranha

queimarasgaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimarasgaqueimaarranha

queimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueima

queimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueima

queimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueimaqueima

decompõe

fosco, despedida, sublimação, aceno, arrependimento, frio na barriga, treme as pernas! é um sonho??! blur!fade out! escurecimento.

vermelho, azul, verde, amarelo, púrpura, quadrados, retângulos, mão, joelho…

centro do palco. cortina. risada.

Dia Fresco

18/09/2009

Sempre com uma sensação de suspenção que faz pairar

Um balão no ar,

o vento que quase o estoura

É nessa possibilidade de falência  de volume que mora a totalidade que o ausenta da terra

E esse balão transparente que se crê vermelho, se crê como forma de aparecer em meio ao céu reuidoso

Ser algo específico, ser algo livre mesmo que com sua corda raspando o tempo inteiro no concreto

O avião passa e faz suas moléculas se reconfigurarem

A chuva causa um som tão específico, talvez até ritmado

Brilho pra cima, pro infinito, pro nada

O balão não consegue aterrizar e tem medo

Falta coragem. Esquece a necessidade da coragem, esquece da existência da coragem

Voa quase livre, quase vermalho, quase sem necessidade de voar

P

R

E

S

S

Ã

O

Pro chão

Alguém puxou esse balão, alguém o quer lá embaixo

O balão se vira para baixo

E é um outro balão

Tão mais bonito,tão mais concreto

Um balão que não precisaria ser vermelho mas acaba sendo

O balão debaixo quer companhia, mesmo de um que voa quase que fugindo da terra

O balão no ar não sabe porque um balão tão incrível quer um outro que talvez se perca na estratosfera e exploda sem importância alguma pro ar ou pra terra

O balão terrestre quer trazer o balão que despenca pra cima para baixo

O balão sem rumo tem medo, não sabe se vai conseguir

Prefere fugir, mas volta, rela sua cordinha no chão mas foge de novo

E tenta voar mas já não é possível, tocaram nele e ele não consegue mais se desvencilhar desse toque, não aguenta mais o ar, ñao aguenta mais o choque de cima

Quer voltar a todo custo pro chão

Acender pra baixo

Tem medo mas arrisca uma aterrizagem de emergência antes que se estoure de tanto suspirar só inspirando, enchendo-se

O balão não quer estourar, quer simplesmente descer pro mais alto que nunca esteve.

Mas não sabe e não quer fazer isso sozinho e muito menos com qualquer outro balão, quer aquele que lhe tcou o chão.

Senão continuará voando sem rumo.

Pranto

05/07/2009

e passaremos o tempo

assim, desse jeito

não o que perdemos

nem importa se o atraso é de 2 minutos

se o atraso é o do vento

que inexiste pelo tempo

se atraso é esse momento

e não o que sempre já passou

mas dentro

rasga

como um rosto

recompondo

o estrondo

terceira pessoa do singular

do plural do mesmo

me atrasa

você bem que previa

todavia já são vinte para meia-noite

suas mãos estão ainda mais frias

eu sei que fui eu que te propôs um calor pra sempre

mas você me olhava como se o cimento

mas isso não importa tanto quando é quase meia-noite

e eu quase não lembro

como se faz um ponto-final

que não soe como pergunta

pergunta atrasada com um pranto atrasado

todavia

ponto

Onde Deus Não Dá

05/07/2009

respira

onde deus não dá

contorce

espera que

apunhale

e fale

alguns anos a menos

não temos

prende o ar

o corpo sabe

o mundo também

metade

do meu outro

não

é meu

arde

lá dentro de mim

carne

um frio dos teus tropicos

sal de

nós diluido

a quem reina eu digo

não seja eu

quem eu sigo

não te siga.

ele, o AMOR

30/06/2009

“Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.”

Transformado em palavras por Caio Fernando Abreu.

E você, MAR, que me trouxe essas ondas que me levarão pro resto da vida.

Bússula?

30/06/2009

queda

Me deprime pensar que o que sinto é exatamente o que penso sentir.

Me deprime não conseguir autenticar o que penso.

Me deprime me culpar porque vou me deprimir.

Me deprime a insignificância e a vitalidade do meu deprimir.

Me deprime a palavra, esta.

Me deprimo tanto que me sinto leve.

Vôo, nem que seja para baixo.

Me deprime esquecer do que me deprime e no auge do vôo nem lembro como cheguei tão longe, não vejo mais a trilha e sinto um vento me cruzar, sinto tanto ar disponível para um respiro.

Deprimir desdeprimindo.

Será que na queda há segundos em que tudo parece um vôo?

Caiamos pra cima!

Stranger in Moscow

30/06/2009

Se a emoção veio pelos fatos, pelo vídeo lindo ou pela letra não sei. Mas veio.
I was wandering in the rain
Mask of life, feelin’ insane
Swift and sudden fall from grace
Sunny days seem far away
Kremlin’s shadow belittlin’ me
Stalin’s tomb won’t let me be
On and on and on it came
Wish the rain would just let me be

How does it feel
(How does it feel)
How does it feel
How does it feel
When you’re alone
And you’re cold inside

Here abandoned in my fame
Armageddon of the brain
KGB was doggin’ me
Take my name and just let me be
Then a begger boy called my name
Happy days will drown the pain
On and on and on it came
In the rain, and again, and again
Take my name and just let me be

How does it feel
(How does it feel)
How does it feel
How does it feel
(How does it feel)
How does it feel
(How does it feel now)
How does it feel
How does it feel
When you’re alone
And you’re cold inside

How does it feel
(How does it feel)
How does it feel
How does it feel
How does it feel
How does it feel
(How does it feel now)
How does it feel
How does it feel
When you’re alone
And you’re cold inside

Like a stranger in Moscow
(Lord have mercy)
Like a stranger in Moscow
(Lord have mercy)
We’re talkin’ danger
We’re talkin’ danger baby
Like a stranger in Moscow
We’re talkin’ danger
We’re talkin’ danger baby
Like a stranger in Moscow
I’m livin’ lonely
I’m livin’ lonely, baby
A stranger in Moscow

KGB Interrogatory (Russian to English translation):
“Why have you come from the West? Confess!
To steal the great achievements of the people,
the accomplishments of the workers…”

Roteiro aparentemente não truncado em que seu desvelado se configura enquanto social e o oposto em relações emaranhadas por uma morte pouco explicada. Menina morta? Menina transvestida que assassina e se inocenta histericamente em meio ao choro!

Assistir ao filme e traçar uma relação simplória com “Santa Joana dos Matadouros” de Bertolt Brecht parece apropriado.

“Resumindo: vocês têm

Que recolocar Deus em pé

A única salvação

Batendo os tambores em seu nome

Para que ele tome alento nos subúrbios da miséria

E nos matadouros a voz dele seja ouvida.

Isto seria suficiente.”

Santa Joana dos Matadouros, Bertolt Brecht – Quadro 08 – Discurso de Pedro Paulo Bocarra segundo o qual o capitalismo e a religião são indispensáveis.

O caminho do filme parece claro: inicia-se em relações privadas, fechadas em si e aos poucos essas relações se explicitam como maiores, como sociais. O filme ganha uma amplitude, um corpo tão grande quanto as feridas subjetivas retratadas. Porém quando esse corpo enorme fica insustentável na tela, quase metafísico, realiza-se uma concretização do filme com a mesma cena inicial em seu fim, fechando um ciclo, equalizando o social e o privado, desfazendo suas supostas oposições.

Esse limiar se precipita também em atuações em que se trabalha com marcações precisas e uma improvisação arrebatadora que são potencializadas por uma decupagem que respira e dá espaço para essas liberdades. Atenção aqui para o plano, um dos lindos e sutis “travelling-outs”, em que o personagem do, aqui, ótimo Daniel de Oliveira se contorce na cozinha, como se incorporasse algum espírito, e temos a “surpresa” no fim da cena com sua mãe que aparece em primeiro plano.

Intercalado com esse “retorno” da mãe, é interessante observar o carácter social que o filme ganha. Um tema: morte. Morte da Menina, morte de uma estrutura familiar, ou seja, ainda colocando para a mulher o “fardo acalentador” de ser a dona, a guia de uma família e de suas ramificações, ou seja, de outras famílias que se “inter-dependem”. Relações patriarcais num filme que se circunscreve num tempo aleatório do mundo moderno, ou seja, até pela falta de contextualização o filme inevitavelmente discute questões existenciais mas sem se deixar siderar por elas, ou seja, achando nelas suas raízes externas, fascistas, pouco justas.

Injustiça numa estrutura encoberta pelo véu de eventos sociais, sejam eles uma festa de uma menina, uma morte de um cantor ou a descoberta do “mal-feitor” que explodiu o shopping na novela do horário nobre.

“A Festa da Menina Morta” de Matheus Nachtergaele valeria a pena se estivesse no cinema ainda, mas só estaria se fosse de fato uma festa. Dvd’s à venda em breve.

Divas live

29/06/2009

Sempre são bons os “encontros” de divas da música.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.